A sua real função está em ser quem você é

Markus Spiske, Unsplash
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Tempo de Leitura: 7 minutos
Você tem dúvidas sobre o que faz e como? Pois saiba, todos possuem a mesma função: ser feliz no mundo e exercer essa real felicidade em todas as atividades

Em uma carta fictícia escrita pela Rainha Mary para a então princesa Elizabeth, na série The Crown, da Netflix, há tanto acolhimento quanto um pedido que dita toda a narrativa da história: “Eu sei o quanto você amava o seu pai, meu filho, e eu sei que você ficará tão devastada quanto eu por esta perda. Mas você deve colocar esses sentimentos de lado, porque o dever a chama”.  

A cena, que acontece no segundo episódio, mostra o instante em que Elizabeth, já ciente da morte do pai, o Rei George VI, volta de uma viagem à Nairobi para assumir o posto que agora é dela, como Rainha do Reino Unido. A carta é fundamental, porque deixa claro o momento em que a protagonista se torna rainha e qual será a sua principal mudança agora que não só representa um povo, como também pensa e decide por ele. 

(Foto: divulgação)

Como vemos ao longo da série, essa mudança não é tão simples. A avó de Elizabeth já previa, inclusive, as questões que ela enfrentaria com o tempo, querendo ora ser uma boa irmã, ora boa esposa, ora boa mãe e tendo, todas as vezes, de deixar esses papéis de lado para prezar pela Coroa britânica.

Por mais que a história de Elizabeth tenha um pé nos fatos como o conhecemos, a trama parece, mesmo, uma ficção. Afinal, não é todo mundo que vira rainha do dia para a noite e precisa, nesse mesmo período de tempo, fazer escolhas em nome de  toda uma população. Para você, é assim que parece também? 

Você já pensou nas escolhas que faz e por que as faz? Sente que poderia ser mais objetivo, mais isento, tomando decisões sem tantos conflitos ou dúvidas? Você já perguntou por que faz o que faz? Ou que gostaria de ter um norte para determinar o que fazer? No fundo, talvez você e a Rainha Elizabeth II não estejam tão distantes assim. 

De onde partem as suas metas? 

Você sonha em fazer uma viagem, comprar um carro, uma casa… Você traça metas para si mesmo e para a sua vida? E qual seria o objetivo delas? É para fazer você mais feliz? Caso sim, o que acontece quando você não consegue cumpri-las? Você já deve ter lidado com a frustração de não alcançar uma meta que sempre quis. Ou, ao contrário, atingiu aquele objetivo e percebeu que não era tudo o que você imaginou. 

Segundo Kaw Yin e Yan Yin, consultores existenciais e fundadores da Coexiste, as pessoas estabelecem metas segundo o que elas acreditam – é dessa forma que elas determinam o que é importante para elas e o que é útil ou não segundo o objetivo pré-determinado. Por exemplo, para alguém que acredita que conhecer culturas diferentes é importante para aumentar a sua visão de mundo, viajar para vários países se torna algo valoroso, e tudo o que ela tiver à mão que a ajude a conhecer mais sobre o mundo e suas culturas será útil.

O ponto principal, segundo os também professores, é o que direciona essas metas. É possível estabelecer esses objetivos a partir de dois lugares: um é com base naquilo que cada um pensa e acredita, o seu sistema de pensamento – e, como são sistemas individuais, formulados a partir de percepções individuais e projetados individualmente na mente de cada um, são relativos ao que cada um pensa, não sendo, portanto, objetivos e reais. O outro é o que cada um é, de verdade, e que é o mesmo para todos, e, por isso, é a realidade, o que, de fato, é. 

“Se a meta não está colocada em um lugar realista, se a pessoa não tem a meta na realidade da sua própria existência, ela vai colocar metas irreais, não compatíveis com a verdade sobre ela – e que serão inevitavelmente metas frustrantes, mesmo que sejam alcançadas”, explica Kaw Yin. “Se não alcançar, frustra porque não alcançou. Se alcançar, frustra porque alcançou e não deu em nada, porque não tinha correspondência com a sua própria realidade e com os seus reais anseios.”

Isso é mais próximo e mais objetivo do que parece. Você consegue perceber que existe? E os seus pensamentos? Você se percebe pensando, tendo ideias? Os professores explicam que há uma confusão entre essas duas instâncias: as pessoas acreditam que são o que elas pensam, e esquecem que, por trás do seus pensamentos, há uma existência, algo que as mantêm vivas. Dessa forma, elas passam a agir no mundo segundo o que pensam e não segundo o que são, atribuindo suas necessidades aos seus pensamentos e não à sua existência. 

É por isso que as pessoas lidam cotidianamente com uma sensação de frustração, porque tentam cumprir metas com base no que pensam e não com base no que são. “Você desfocou dos seus reais anseios”, continua Kaw Yin. ” A personalidade é uma máscara que nasce no que você pensa, não no fato de você existir. Você existe e pensa. Pensa coisas sobre você e constrói uma ideia, um conjunto de julgamentos sobre você mesmo, sem compromisso com a sua realidade, e, a partir daí, você constrói um sistema de pensamento que começa a exigir coisas a partir dele, como se ele se tornasse autônomo.”

O que Elizabeth deixa claro na série The Crown é um movimento semelhante a esse: trocar as decisões tomadas a partir de uma visão individual, baseada no seu sistema de pensamento, e fazê-las de outro lugar, considerando sempre a sua função como representante de um povo. 

Todos têm a mesma função? 

Talvez você esteja se perguntando: eu não tenho a mesma função que uma Rainha, por que tomar decisões de outro lugar? Na verdade, não é bem assim. Todas as pessoas têm, sim, uma mesma função. Mas há um caminho para reconhecer esse fato. 

Como explica Yan Yin, antes de entrar em contato com a sua real função, uma pessoa precisa entender o que está fazendo no mundo. E isso pode começar com algumas perguntas básicas, como ‘Quem sou eu?’, ‘De onde eu vim?’, ‘Para onde eu vou?’. É um questionamento que busca gerar um entendimento sobre o porquê você está aqui – e esse entendimento é o que leva à compreensão da real função de todos, que é retomar o seu estado existencial original. 

“As pessoas estão perdidas. Elas estão afastadas do seu estado existencial, estão esquecidas que elas existem, porque elas existem, porque foram criadas, e isso dá essa sensação de vazio e inutilidade no mundo”, diz Yan Yin. “Quando a pessoa começa a se questionar sobre quem ela é, de onde ela veio, o que ela está fazendo aqui, ela vai esbarrar com ‘Eu tenho alguma coisa pra fazer e não sei o que é’. Quando começa a se questionar, ela vai perceber que os fazeres do mundo não fazem sentido se você não tiver um porque maior para fazer as coisas. Elas nunca vão se sentir realizadas ou preenchidas se não tiverem esse motivo maior.”

Aqui, vale notar que “motivo maior” é uma motivação que está além das atividades do dia a dia e das realizações que o mundo ensina, como ter uma carreira de sucesso, comprar um imóvel ou ter um casamento duradouro. 

“A função de qualquer pessoa é relembrar do seu estado original, das suas verdadeiras sensações, relembrar do seu estado perfeito e feliz de existir e conseguir atuar no mundo a partir da existência e não a partir dos condicionamentos que ele ensina. Hoje, de uma maneira geral, as pessoas atuam com base em condicionamentos e não com base na existência”, continua.

Em resumo, a função de todos é ser feliz no mundo. Para os consultores, esse é o verdadeiro significado de presença, que vai além da noção de “aqui e agora” – tem relação com o seu estado natural de ser, livre desses condicionamentos. “Eu estou presente porque a minha presença está focada no que realmente eu sou, e, a partir do que eu sou, eu exerço a minha representatividade no cenário”, diz Kaw Yin.

Agir no mundo a partir da existência pode parecer distante, mas é, mais uma vez, muito objetivo e próximo. “Quem tem consciência da existência e consegue atuar no mundo a partir dela são pessoas que nunca vão sentir raiva de ninguém, que vão compreender os outros e o comportamento de todas as pessoas em volta. São pessoas que vão encontrar soluções não vistas pelas pessoas que atuam a partir dos condicionamentos, são muito dinâmicas, disponíveis, acessíveis, amáveis. São pessoas absolutamente confiáveis”, explica Yan Yin. 

Essa, de acordo com os consultores, é a única postura que pode ser chamada de real e de profissional. 

Como alcançar esse lugar? 

A única maneira é com um treinamento que exercite e estimule a pessoa a adotar uma postura com base no seu natural – e que começa com esses questionamentos básicos sobre si mesmo. “A pessoa precisa de ajuda, porque o questionamento vai fazer com que ela fique com vontade de querer saber”, comenta Yan Yin. “Existe um lugar em nossa mente que se mantém conectado com o que realmente somos. Esse lugar pode ser acessado e utilizado como um orientador ou um professor interno, que nos mostra respostas ou soluções não restritas à uma individualidade, mas que contempla um contexto unicista do qual somos parte. Mas quem está muito envolvido nos condicionamentos perdeu o acesso a esse lugar na mente. Esse acesso pode ser recuperado, e qualquer pessoa pode ter essas respostas, mas ela vai precisar de ajuda para se lembrar”. 

O “como” alcançar esse lugar isento varia. Existem inúmeras escolas e treinamentos voltados para a retomada desse contato. Porém, o ponto mais importante é entender que ele parte de uma desconexão dos condicionamentos aprendidos. “É um desaprendizado do mundo. Você precisa desaprender ou descondicionar tudo o que você aprendeu por condicionamento, para conseguir ter acesso a esse lugar na mente. O questionamento só vai fazer você procurar ajuda para querer saber mais”, diz. 

O resultado desse treino é o que gera a verdadeira sensação de realização – inclusive quando se fala em trabalho. Uma pessoa ancorada nessa postura deseducada do mundo, explicam os professores,  é profissional porque esse é um posicionamento sem passado, que não tem parcialidades, que não tem pessoalidades. É uma visão pura que consegue enxergar e compreender, por isso, não se afeta e é estável emocionalmente.

“Você, tendo uma visão pura, imparcial e impessoal, alcança a lucidez necessária para detectar demandas corretamente”, diz Kaw Yin. “Para fazer um briefing sem desvios, e você vai fazer um atendimento profissional, ou seja, contextualizado com a necessidade de cada cenário. Atendendo essas demandas, o próprio cenário gratifica você naturalmente por gratidão. É muito mais do que um pagamento a um prestador de serviços. É uma gratificação feliz por ter sido precisamente orientado a dar passos em direção a soluções vistas de forma realista, e não como paliativos, mas como soluções mesmo.”

Desistir das pessoalidades e ampliar a perspectiva para atuar em função de todos pode parecer distante e muito fora da caixa. Você pode até mesmo se perguntar porque faria isso, se o mundo mostra o tempo todo que o contrário é mais fácil em função do individualismo que parece proteger interesses pessoais. A resposta é simples: todos trazem consigo uma sensação de que precisa finalizar um quebra cabeça que todos sabemos que está incompleto. A sensação de realização, seja no trabalho ou nas relações pessoais, e a felicidade que ela nos traz, só é possível quando reconquistamos esse lugar sem a limitação de uma visão parcial e pessoal e isolada que nunca nos trouxe segurança e paz. O lugar da visão sem essas restrições já é nosso por direito e temos tudo para resgatá-lo. Alcançar a consciência máxima disso exige dedicação e treinamento, e o primeiro passo é decidir por essa mudança. Porém, só o fato de trazer esse assunto à tona já nos demonstra, no mínimo, uma nova possibilidade de caminho para trilhar, não mais sozinhos, mas com companheiros conscientes nesse processo que é de todos.  

 

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