Como se adaptar a mudanças tão rápidas

Xavi Cabrera, Unsplash
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Tempo de Leitura: 8 minutos
Em meio a pandemia mudanças são constantes. O que era, não é mais. E como ficarão as coisas, também não sabemos. Estamos aprendendo a lidar com o que não está determinado. E acredite, essa é a chave para se adaptar rapidamente

A pandemia da Covid-19 nos deixou de frente com a incerteza dos planos e do futuro. Não que isso não fosse assim, mas numa rotina onde tudo parecia dentro do normal, a sensação que tínhamos é que teríamos tempo de nos preparar para o novo, ainda que ele já estivesse sendo anunciado. Com tantas transformações na rotina, no trabalho, no comportamento de consumo e na economia, não houve outra saída para humanidade que não fosse se adaptar rapidamente. 

Ainda que a adaptação seja uma questão de sobrevivência, o momento complexo pelo qual passamos trouxe transformações em diferentes níveis. Se do ponto de vista pessoal tivemos que aprender a trabalhar em casa, conciliar o tempo entre tarefas de cuidado com a casa, com o trabalho e a lida com as crianças em casa, conviver mais de perto com quem moramos, para muita gente significou ver a sua atividade com a demanda reduzida, pelo menos por esse período. 

Alguns dados de mercado podem ajudar a perceber alguns desses efeitos. Um levantamento feito pelo Sebrae aponta que pelo menos 600 mil micro e pequenas empresas foram fechadas e 9 milhões de funcionários demitidos em razão da pandemia. Já um estudo de de mercado dirigido pela Opinion Box, e atualizado ao longo da quarentena no Brasil, mostrou que se no começo havia uma intenção de manter os pagamentos a profissionais como cabeleireiros, personal trainers, diaristas e babás, ainda que com valores menores, ao longo das semanas, essa contribuição teve uma redução de 20% em média, entre março e abril. No ramo de eventos, a estimativa de perda é de R$ 80 bilhões considerando os cancelamentos entre abril e maio deste ano, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Eventos. 

Pois bem, como então lidar com esse cenário tão incerto? 

Para o professor e pesquisador Dado Schneider, a adaptação em si já é uma resposta ao cenário. “Não temos que nos reinventar, ou recriar, temos que nos adaptar. Eu não vou virar um outro ser, eu sou o mesmo de sempre, só que diante de uma mudança que não tem paralelo na história recente”. 

Autor do livro O Mundo Mudou Bem Na Minha Vez, em que traz provocações sobre a necessidade de mudança de mindset para se adaptar às transformações trazidas pela evolução da tecnologia, ele atualizou o termo para O futuro mudou bem na minha vez, diante da incerteza do que vem pela frente. 

Ele acredita que as transformações trazidas pela pandemia serão muito significativas. Já fazia parte de suas palestras a comparação da efervescência vivida na década de 1920 em termos culturais, artísticos e tecnológicos, pós-Primeira Guerra Mundial e pós-Gripe Espanhola com a atual década de 20, transformadora pelos impactos da revolução tecnológica que traria, mas em seus estudos a pandemia era um detalhe. “Eu não tinha esse referencial, até chegar a Covid. Parecia que teríamos a vantagem de viver essa transformação sem passar por uma guerra. E no fim é o que estamos vivendo hoje, em nossos abrigos, nos defendendo dessa ataque”, aponta. “Vai ser difícil no curto prazo, mas no longo prazo vai ser uma década incrível, e talvez saiamos com uma casca mais dura e com nossa capacidade de adaptação mais aguçada. E todos vão lembrar dessa época como um marco: ‘minha empresa se transformou na pandemia’. Eu brinco que é a transformação covidigital”, aponta. 

Dado enfatiza que não há fórmula para a manter a capacidade de adaptação aguçada, é apenas uma questão de se manter aberto. “Antes, a gente se diferenciava por idade, e hoje tem velho jovem e jovem velho, é uma questão de mentalidade, tem pessoas que não estão se adaptando. Nós somos adultos inéditos. Nós vamos viver até 100 anos, e vamos trabalhar até 95 anos, e não é só um, vai ser todo mundo. Vamos viver muitas mudanças ainda, e precisamos estar abertos para acompanhar”. 

Para o Daniel Costa, Head de Pessoas e Propósito da consultoria Fábrica de Criatividade, lidar com o momento atual utilizando o potencial criativo que temos pode nos permitir encontrar soluções inovadoras.  “O problema é a matéria-prima da criatividade. E se não tiver medo, e não encarar isso como algo ruim, podemos parar e pensar: que oportunidades há por trás disso?”, assinala. 

Mais consciência, menos medo

Quando se começou a pensar em quarentena na capital paulista, no início de março, a empresária Renata Affonso viu o planejamento estruturado no decorrer de quatro meses anteriores cair por terra. A Bem São Paulo, agência de experiência da qual Renata é sócia, tem por propósito conectar as pessoas à cidade, e entrega isso por meio das experiências que promove. Ou seja, nada que poderia acontecer em meio à quarentena. O cronograma de 2020 foi aposentado e o principal cliente cancelou o contrato. 

Os primeiros passos foram colocar a equipe em home office, fechar o ponto de atendimento que mantinham no Shopping Light, e depois quebrar a cabeça em busca de uma solução. “Foram duas semanas em suspensão, tentando entender os rumos que tomaríamos”, relata

Foram buscar no que tinham planejado a possibilidade de adaptar alguma atividade. “Nesse momento, também estava começando a enxurrada de lives, e a gente não tinha cursos ou conteúdos para oferecer. Mas víamos que ali tinha uma oportunidade”. O resultado foi pegar uma experiência que já tinham feita algumas vezes presencialmente, cozinhar junto com um chef de cozinha, e torná-la online. “Foi uma solução boa para todos, pois muitos chefs precisaram fechar seus restaurantes, e os fornecedores que geralmente atendem eventos presenciais, precisavam também diversificar suas ações”, conta. 

A experiência consiste em o cliente comprar o tíquete no site, e no dia marcado, ele recebe um kit com os ingredientes, e entra no Zoom na hora de cozinhar. “É também uma forma de as pessoas conhecerem outras pessoas, já que é algo tão limitado agora”, conta. 

Cozinhando com o chef
Fotos: Divulgação/ Bem Em Casa
Foto: Divulgação/ Bem Em Casa

A experiência deu tão certo, que eles criaram a plataforma Bem Em Casa, que somou outras experiências gastronômicas, e já foram procurados por novas empresas interessadas em oferecer isso a seus clientes. 

Além disso, a iniciativa permitiu que os sócios expandissem a atuação da agência pelo território nacional. Antes eles estavam limitados a São Paulo e Rio de Janeiro, e por meio da atividade online conseguiram alcançar novas localidades, como João Pessoa (PB), Belo Horizonte (MG) e Curitiba (PR). “No Dia das Mães tinha uma família em que a filha estava em São Paulo, o filho no Rio de Janeiro e a mãe em João Pessoa, e os três cozinharam juntos. Foi bem emocionante para eles”, conta. 

Isso tudo aconteceu em apenas dois meses. A adaptação rápida veio do trabalho em conjunto da equipe, mas a empresária não tira a importância que o treinamento consciencial, a que se dedica há 7 anos na Coexiste, para ter calma nesse momento. 

“O treinamento ajudou a ter uma lida muito objetiva com o que foi se apresentando, sem especular o que ia acontecer. Entender o que chegava a cada momento e ir entregando. Eu vejo que quem treina isso atua de uma forma muito prática, sem resistir às mudanças”, conta. A empresária também aponta o entendimento do contexto como uma vantagem do desenvolvimento de consciência. “Eu vejo que há uma clareza e uma certeza de que o mundo não será mais o mesmo”, conclui, 

Aliás a não aceitação da mudança foi  um aspecto apontado pelo pesquisador Dado Schneider. Ele diz que as pessoas acham que logo vão estar em barzinhos, conversando. “Mas não sei se vai ter o bar, ou se as pessoas vão estar se tocando em pouco tempo. As coisas mudaram muito, e há uma dificuldade em aceitar isso, pois é algo que está fora do controle das pessoas. Ninguém sabe como será”, aponta. 

“Pressupostos não se adaptam”

À luz da sabedoria, a adaptação acontece quando você não determina o que precisa fazer, nem o como. “Pressupostos não se adaptam”, é o que dizem Kaw Yin e Yan Yin, fundadores da Coexiste. 

Eles explicam que o que impede a adaptação são as pessoas partirem de ideias predeterminadas. “A pessoa já parte da ideia predeterminada sobre algo. Se você tem uma ideia pré-determinada de como deve ser o seu trabalho, de como deve ser o seu corpo, a sua alimentação, o seu sono, a sua agenda, a sua rotina, qualquer coisa. Se você predeterminar aquilo que você quer, você vai fazer valer o que você determinou, e  vai ser muito difícil se adaptar. E na iminência de mudar valores, você vai se sentir contrariado”, explicam. 

Entendida essa premissa básica, se há dificuldades de se adaptar, é necessário, então, rever seus valores. “É necessária a consciência de que aquele valor atribuído aquilo não é um valor absoluto, mas relativos ao que você estabeleceu. É o valor que você tem dado àquilo”, esclarecem. 

Ao rever valores, você pode se ver livre para atender as demandas que chegam. “Quanto menos predetermina como as coisas devem ser, mais livre você se sente para atuar como é pedido, conforme a demanda do momento, pois não é você que determina a demanda. A demanda surge e você atende”, explicam. “Com valores predeterminados você vai começar a negar demanda, e vai falar que está faltando trabalho. Não está faltando trabalho, só não tem o trabalho que você predeterminou”, complementam. 

Até mesmo para lidar com o cenário de quarentena, em que é necessário se adaptar ao novo estilo de vida, ou a ter que ficar em casa e não encontrar com as pessoas. “Encontrar com pessoas específicas, na frequência que você acredita que tem que ser também é algo predeterminado por você”, afirmam os consultores. 

A solução para isso é assumir a disponibilidade em atender aquilo que se apresenta. “Eu preciso ser encontrado pelas demandas ocorrentes, reconhecê-las e descobrir como atendê-las de forma otimizada”.

Ao entrar em contato com a possibilidade de não predeterminar as coisas, pode ser que a adaptação possa ser percebida como um conformismo, ou a perda de algo desejável, e os consultores esclarecem: “Na verdade o que está ocorrendo é a substituição do que não era mais importante pelo que se tornou importante no momento, e isso acontece pela perfeição universal que traz em cada momento a necessidade de cada momento, independente de ser reconhecida como tal. O não reconhecimento é mera ignorância do fato”. 

É como se começasse a sentir falta do guarda-chuva quando não está mais chovendo. Quando para de chover e faz sol, você precisa do protetor solar, e não do guarda-chuva. “Isso parece óbvio no caso do guarda-chuva, mas é óbvio assim em tudo. A obviedade só não é vista pelo desejo de impor o que você acha que tem que acontecer”, afirma Kaw Yin. 

Mente focada no presente

A dificuldade em se adaptar ao novo cenário e às incertezas que ele traz tem gerado, nas pessoas, um sentimento de nostalgia, não sendo incomum ouvir as pessoas dizerem: “naquele tempo era assim…”, mesmo que se refiram a períodos recentes. “Quando uma pessoa passa por um período de muitas mudanças presa a valores antigos, ela se priva do que pode ser vivido agora, e fica mantendo na mente uma ideia antiga de como as coisas eram, e querendo que aquilo que se mantenha, que as coisas voltem a ser daquela maneira. Mas isso não está sob o controle de ninguém”, analisa Yan Yin. 

A saída para isso está em desenvolver o foco da mente no presente, e receber tudo o que chega com gratidão. “A gratidão sobre o reconhecimento da importância das coisas que aconteceram, no passado, precisa desenvolver em nós a confiança no presente e no futuro. As experiências do passado que nos ensinaram e nos trouxeram coisas importantes naqueles momentos são demonstrações de que a vida é confiável, e que todos os momentos trazem o que nós precisamos. Se nós soubermos olhar cada momento no presente, nossas recordações sempre serão gratificantes, pelo fato de termos conseguido extrair de cada um deles tudo o que ele tinha para nos dar, mas, para isso, a mente tem que estar focada no presente”, ensinam os consultores. 

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