Tão longe, tão perto

Foto: Anthony Tran/ Unsplash
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Tempo de Leitura: 7 minutos
O distanciamento social tem sido uma grande oportunidade de reolhar os relacionamentos e entender onde as conexões acontecem. Não ter medo de mudar o que se pensa é o início desse processo

A velha máxima “o que os olhos não veem o coração não sente” ganhou entendimentos muito mais profundos em meio a essa quarentena e à necessidade de se manter o distanciamento social. Não colocar os olhos nas pessoas que fazem parte de nosso dia a dia trouxe uma atenção maior aos relacionamentos e à importância deles na nossa vida. Por outro lado, com menos distrações, e um olhar mais interno, muitas sensações que sempre estiveram presentes, mas pouco reparadas, ganharam evidência. Lidar com o isolamento tem sido um dos grandes desafios dos últimos meses. 

A falta de liberdade de ir e vir, a rotina impactada, a distância das pessoas, o medo de ficar doente, o medo do desemprego, da morte, a dor da perda, a solidão, e claro, a dificuldade nas relações são fatores apontados em artigos de especialistas em saúde mental como impulsionadores de quadros de ansiedade e depressão, e alertam para uma crise mundial, que deve apresentar seus efeitos ao longo dos próximos anos. 

Embora esses sejam dados de quem faz uma leitura de um quadro geral, cada um sabe o que já sentiu ao longo desses dias ao lidar com a restrição do convívio com as pessoas, mesmo que em doses menos agudas. Em algum momento houve uma vontade de dar aquele abraço; de achar que se encontrasse com aquelas pessoas, se sentiria menos só. Ou de ver gente, ir ao cinema, à balada, ou até se pegou querendo ter conversas mais profundas com as pessoas, deixando as amenidades de lado. Se viu afastado de gente que convivia todo dia, ou mais próximo de quem nunca conversou tanto. Fato é que essa situação está trazendo uma nova perspectiva para as relações, e para o que nos conecta com as pessoas. 

Aliás, a conexão com o todo também é a saída apontada por especialistas para manter a serenidade nesse momento. Em uma entrevista publicada no site da Unifesp, o chefe do departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina, Jair de Jesus Mari, fala sobre a necessidade de manter o contato com as pessoas, e de sempre lembrar que o isolamento faz parte de um comportamento grupal em prol de um benefício social como medidas para se manter saudável mentalmente. 

Seja de uma forma ou de outra, considerar a conexão com as pessoas passou a ser algo importante, e tudo o que está acontecendo no mundo neste momento só reforça isso. Sair de uma perspectiva pessoal para considerar todo o contexto e como contribuir com ele tem sido uma demanda, mas como encarar isso de forma realista, sem, no distanciamento das pessoas, se sentir isolado e sozinho?

Isolamento mental X Isolamento físico 

O fato de ficarmos distantes fisicamente das pessoas nos permite observar alguns fatores: 1) o quanto nos sentimos confortáveis próximo das pessoas; 2) o que nos faz realmente nos sentir conectados uns aos outros. Olhar para esses aspectos sinceramente pode mudar completamente a forma como nos relacionamos. 

“Para um relacionamento de fato acontecer é preciso haver comunicação”, é o que dizem Kaw Yin e Yan Yin, consultores existenciais e fundadores da Coexiste. A comunicação é definida por eles como uma experiência comum, uma visão comum dos fatos. Mas quando os encontros acontecem a partir de uma percepção individual de cada um isso já caracteriza isolamento. “Quando as pessoas não se comunicam elas se sentem isoladas, independente de estarem fisicamente perto. Elas estão isoladas dentro do que pensam, do que acreditam dentro das suas crenças, das suas avaliações extremamente particulares sobre todas as coisas. E é a partir disso que ela percebe o mundo, as pessoas, a si mesmo, e essa não é uma percepção possível de ser compartilhada. Se essa barreira não for quebrada, as pessoas vão se sentir isoladas, mesmo tendo corpos em volta”, explica Kaw Yin. 

Eles explicam que o fato de ficarmos distanciados fisicamente só evidencia uma sensação de isolamento que todos sentimos, mas não reparamos.

“O isolamento físico traz à tona a sensação de um hábito mental que normalmente é disfarçado com encontros físicos onde a pessoa se mantém isolada. As pessoas têm um hábito de se manterem isoladas na mente e disfarçam isso com atividades e alguns fazeres, e até com contatos físicos, onde se mantêm isoladas, fechadas nos seus pensamentos, fechadas nas suas ideias. Quando se coloca o isolamento físico também como um fator, o isolamento mental, que já existia antes, fica muito evidente”, explica Yan Yin.

Compreender isso é importante para tentar buscar a saída, que está na comunicação. “Quando a gente fala sobre sair do isolamento mental e sobre os efeitos que o isolamento social está tendo, são efeitos gerados pelo hábito do isolamento mental que sempre esteve na sociedade. Pra esses efeitos pararem de acontecer precisa ter uma ação muito específica na vontade de querer sair do isolamento mental”, afirma a consultora. 

Perceber a diferença entre uma real conexão e os encontros que acontecem na superficialidade dos assuntos foi um ganho nítido para a profissional de marketing Bell Lopes durante a quarentena. Morando sozinha em São Paulo e adepta ao home office antes mesmo da determinação da prática, se adaptar ao distanciamento social não foi tão complicado. “Foi um período de observar muito a função das relações, e de como elas se apresentam em cada momento”, diz. 

Distanciamento social
Em sua conta no Instagram, Bell fala sobre como tem sido esses dias: “Tem vezes que eu não quero nada do mundo. Basta a paz que vem do simples desfrute do quer que seja. Nesses momentos, eu desisto dos meus pensamentos, desejos e ideias pelo compromisso com a paz”. (Foto: Instagram)

 

Bell sempre fez muitos cursos em diferentes áreas – mestrado, artes plásticas, música – e convive com muitas pessoas diferentes. “Sempre estive cercada de pessoas, e convivo super com elas, sempre havia algo para fazer”, relata. Mas com o início da quarentena, aconteceu um afastamento dessas pessoas. “Foi algo meio natural. Sem as atividades, parece que perdemos o vínculo”. Por outro lado, ela se aproximou de amigos da adolescência que apareceram num grupo de Whatsapp. ”Entendi que as relações acontecem por uma função, e vou me dedicando ao que se apresenta em cada momento. Eu percebi nessa quarentena que eu gosto de estar junto das pessoas, não importa a atividade. E estou fazendo isso à medida que tenho a oportunidade de me aproximar mais delas”, afirma. 

Questionar seu sistema de pensamento 

Assim como a Bell viu no interesse pelas pessoas uma oportunidade de aprofundar os relacionamentos, esse é o caminho para acabar com a sensação de solidão, mais aflorado pelo distanciamento social. “A sensação de solidão vem da percepção isolada que cada um tem. Para sair disso, a pessoa precisa questionar o nível de flexibilidade que quer ter em seu sistema de pensamento, seus valores e suas crenças”, explica Kaw Yin. 

Pois é, cada um conhece a sensação de se sentir só mesmo rodeado de pessoas. Esse questionamento vira as atenções, agora, para a nossa abertura para o relacionamento, algo que depende de nós, e não de circunstâncias externas. 

A importância de questionar as bases do nosso pensamento está no fato de termos muita segurança no modo como percebemos as coisas, e como definimos o mundo à nossa volta. “A partir de um sistema particular de pensamento, a pessoa tem um relativo controle do qual ela acredita precisar para sentir o que chama de segurança no sentido de estar fazendo como ela quer fazer; agindo como quer agir; pensando como quer pensar, falando como ela quer falar; entendendo como ela quer entender. Então, se ela se mantiver muito rígida em todas essas configurações, numa postura de ‘eu quero que seja assim como eu penso’, ela pode se sentir ameaçada na possibilidade de comunicação. Porque, ao se comunicar, ela pode se deparar com outras formas de pensar, que podem mostrar a ela que seu sistema contém equívocos que precisam ser mudados”, esclarece o consultor. 

Para a analista financeira Cristiane Paiva, o aprofundamento das relações foi o que a permitiu manter-se tranquila durante os 25 dias que passou sozinha no início da quarentena. “Eu pensei que não fosse dar conta disso no começo, mas a quarentena foi uma ótima oportunidade de olhar para mim mesma, de identificar o que eu penso, o que eu sinto, e como, ao mudar o que eu penso, as coisas mudam”, disse. 

A dedicação a um fortalecimento interno tem sido fundamental para lidar com o fato de não encontrar as pessoas. “Eu acordava e fazia meus exercícios mentais, e já logo percebia que eu não estava de modo algum sozinha”, conta Cristiane, referindo-se a práticas diárias do Curso A Verdade Presencial, treinamento existencial que frequenta há cerca de um ano. 

Essa serenidade permitiu que ela virasse um ponto de referência para as amigas. “Eu comecei a me abrir mais para entendê-las, e acabou o espaço para amenidades. A comunicação passou a ser solução. A única ferramenta que a gente tem nessa situação é a conversa, e no interesse pelas pessoas, eu saí da minha cabeça. Imagina que em outras situações eu ficaria três, quatro horas conversando. Isso mudou completamente minha visão sobre o que quero das relações”, afirma. 

Agora, ela foi passar a quarentena com a família no interior de Minas Gerais, está junto com os pais, irmã e sobrinhos, e o que aprendeu no período sozinha foi transferido para lá. “Aqui eu ajudo no que precisa, está sendo muito interessante a nossa relação. E se precisar voltar pra casa, não tenho medo disso”, diz. 

O exemplo de Cristiane corrobora o ensinamento de Kaw Yin e Yan Yin sobre se ter uma abertura para mudar a própria mentalidade. Eles explicam que o medo que pode haver ao se abrir para mudar as bases de pensamento acontece na confusão que há entre o que se pensa e o que se é.

“Enquanto a pessoa estiver identificada com o que ela pensa, as mudanças de pensamento podem gerar medo de mudar o que ela é. Ela pode fazer mudanças no que ela pensa, e o que ela é se mantém. Essa confusão acontece, pois se acredita que é possível determinar o que se é, e não é, isso já foi determinado na nossa Criação ”, afirmam os professores. 

Alcançar a consciência plena sobre o que se é exige determinação e muito treinamento, não importa qual caminho se escolha para isso. Por estarmos muito acostumados a nos identificar com o que pensamos, precisamos buscar uma saída. “Falando de forma objetiva, para sair desse isolamento mental, a pessoa vai ter que estudar e se aprofundar para conseguir alcançar essas estruturas, esses detalhes, esses sentimentos para não ter medo na comunicação, mas precisa de um entendimento mais profundo para isso, pra que possa flexibilizar o sistema de pensamento e, assim, sair da sensação de isolamento, da sensação de solidão, sem depender inclusive de que formato ela vai usar para isso, do quanto tem relacionamento físico nisso, ou se é presencial ou não”, concluem. 

 

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