Meditação: mais do que uma prática, um estilo de vida

(Foto: jjsion / Unsplash)
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O estado meditativo pode ser vivido em todos os momentos do seu dia, e isso é um caminho de transcendência

O que é meditação? Muito tem se falado sobre cuidar do corpo e da mente, diminuir o nível de estresse no dia a dia, como lidar com a síndrome de burnout e até com a depressão – e que meditar é considerada uma ótima ferramenta não só para lidar com isso, como para ajudar a melhorar o foco e acalmar a mente. Mas será que você sabe, realmente, para que serve a meditação e a importância de usá-la na sua rotina?

Estima-se que o valor de mercado para a meditação aumente para dois bilhões de dólares até 2022, segundo uma pesquisa da Marketdata Enterprises. É uma cifra gigante para uma prática tão antiga quanto a própria humanidade, mas que tem crescido em popularidade nos últimos anos – um reflexo da busca também crescente por um estilo de vida mais confortável e com maior sensação de bem-estar.

Os números também não mentem: entre 2012 e 2017, segundo um estudo do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, os praticantes de meditação mais do que triplicaram: o salto foi de 4,1% para 14,2% de adultos que já tentaram meditar pelo menos uma vez. Também é a segunda prática preferida dos norte-americanos quando o assunto são cuidados com o corpo e a mente, atrás do ioga propriamente dito.

E tudo isso, claro, tem um motivo. Meditar tem, sim, efeitos diretos no nível de estresse e ansiedade dos praticantes – inclusive reduzindo as chances de nova crises depressivas em 12%, de acordo com uma pesquisa da Universidade do Colorado.

Mas acontece que, muito além do bem-estar e de rotinas menos ansiosas ou estressantes, a meditação tem um objetivo: cessar as atividades da mente.

Os registros antigos que se tem sobre a meditação, entre pinturas e estátuas de pessoas na posição de lótus, são datados de mais de 5 mil anos antes de Cristo, e permeiam as mais diversas culturas e religiões, indo dos chineses e egípcios até os judeus, hindus e budistas.

Patanjali, reconhecido como o sábio que trouxe ao mundo os sutras do ioga, organizou o conhecimento que se tinha sobre o ioga, por volta de 1700 anos atrás, e neles só se fala sobre a prática mental, a meditação. O segundo sutra diz isso, que o ioga é o cessar dos movimentos da mente.

Na tradução de Carlos Eduardo Barbosa, ele explica esse sutra  da seguinte maneira:  “Vrttis*, que chamamos aqui de “meios de expressão”, podem ser descritos como os desdobramentos materiais de citta*. Quando estão vinculados ao mundo manifestado, criam a consciência e a ilusão de separatividade, trazendo para a nós a ideia de que observador e objeto observado são entidades distintas. Quando são “recolhidos” levam a consciência à percepção de átman (eu superior / alma) nos objetos observados, o que elimina qualquer possibilidade de separatividade, destruindo desta forma a raiz de todo sofrimento”. (*palavras em sânscrito que compõem o sutra) 

Compreendendo a meditação dessa maneira, como o meio de atingir o lugar acima dos pensamentos, e onde acaba a ideia de separação, e consequentemente de sofrimento, tem-se a meditação como uma ferramenta que pode ir muito além.

Por que cessar os pensamentos? 

Kaw Yin e Yan Yin, fundadores da Coexiste e especialistas em desenvolvimento consciencial, explicam que a razão do sofrimento humano está no fato de nos focarmos em nossos pensamentos, e não em nossa existência. Se observamos a nossa mente, é fácil perceber o quanto somos regidos pelo que pensamos. As crenças, valores, conceitos que carregamos determinam o modo como percebemos o mundo, e interagimos com ele, gerando, assim, as imagens que percebemos e as sensações resultantes, e a impressão de que o mundo é da forma como percebemos.

Por exemplo, se algo não está bom para mim, é porque não está de acordo com o que eu penso, e dessa maneira, posso dizer que estou triste, ou decepcionado. Mas é uma sensação que parte dos julgamentos que faço sobre isso, não sobre o que isso é de verdade.

“As pessoas não entendem que elas tão presas dentro de um universo mental que elas constroem.Elas estão muito identificadas com o que pensam sobre elas, e sobre o mundo. Por isso, muitas vezes, falar sobre desistir do que se pensa pode dar uma sensação de deixar de existir”, esclarecem. “Porém, para pensar, você precisa, antes, existir. A meditação é algo que busca separar o que você é do que você pensa, é um estado de contemplação. Você vai ter que contemplar até você conseguir ter discernimento, e uma coisa não tem nada a ver com a outra. Esse é o fim da meditação”, explicam.

Para a professora de ioga do IEPY, Carolina Rojo, procurar esse discernimento traz uma sensação de conforto.  “Ficar quieto e buscar esse lugar é muito confortável. E, às vezes, isso leva você a encontrar um lugar que você gosta em você. É uma ferramenta com a intenção de deixar você menos imaginativo, porque dá um baixão nos seus pensamentos e você para de concordar com eles ou valorizá-los “, afirma.

Agora o caminho para alcançar isso deve partir de uma sinceridade na hora de se propôr a, de fato, meditar. “O praticante de meditação precisa descobrir o que é meditação pra saber se é isso que ele quer. Meditar é desistir de tudo o que você pensa. É não julgar, é você admitir que não sabe nada, é parar o processo intelectual. Você quer meditar?”, salientam os consultores existenciais.

Um estado transcendental 

Muitos sábios atingiram o estado de iluminação por meio da meditação. Buda é exemplo disso. O príncipe Sidarta Gautama queria encontrar a solução para o sofrimento das pessoas e deixou os luxos do palácio em que vivia para ir em busca de respostas. Depois de muito tentar, inclusive passando por privações físicas profundas, comendo só a cada 15 dias, ele descobriu “o caminho do meio”, um dos pilares do Budismo. Buscando um equilíbrio entre a vida mundana e a procura por soluções para os seus questionamentos existenciais, ele adotou a postura meditativa embaixo de uma árvore e ali ficou, se recusando a sair do lugar até atingir a iluminação completa.

“Aqueles que usaram a meditação no processo de iluminação, não queriam meditar, mas iluminar”, explicam os professores da Coexiste. “Meditar é viver em um estado meditativo, que é um estado transcendental”, afirma Kaw Yin, em que se transcende os significados do mundo, e se transita no mundo a partir desse estado mental.

Sidarta Gautama (Foto: Reprodução)

É o mesmo que diz o Bhavagad Gita, texto que faz parte do livro hindu Mahabharata, em que Krishna diz: “Penetrado do espírito do ioga, ó príncipe, realiza os teus trabalhos e mantem-te em sereno equilíbrio, na certeza de que tanto o sucesso quanto o insucesso são bons. Essa serenidade interior, é a ioga”. 

Esse é o estado máximo de quem vive em estado meditativo. Mas se você medita e ainda não atingiu esse estado, o que você está fazendo então?

Os consultores existenciais explicam que a meditação como se conhece e pratica acaba sendo um treino para se viver em um estado transcendental, e que precisa ser praticado a todo instante. “O que você faz por um período enquanto medita precisa  que ser estendido durante o dia. O que se aprende nesse período tem que ser feito na reunião, no trânsito, na escola, onde for”, ressalta Yan Yin.

Kaw Yin explica que essa prática é importante, pois é diante de estímulos que recebemos que podemos localizar o que precisa ser transcendido. O professor compara a nossa mente com um quarto empoeirado sendo varrido, onde a poeira é a base de nossos pensamentos, e a vassoura, os estímulos recebidos.  Enquanto se passa vassoura, a poeira levanta e você pode espirrar, tossir, sentir incômodos com a poeira levantada. Agora quando se para de varrer, e aquieta a mente por meio da prática de meditar, a poeira decanta, e se tem a sensação de que essa é uma situação mais confortável que a anterior. No entanto, qualquer pisoteada na poeira, pode trazer os mesmos desconfortos. “As pessoas aquietam, mas a base que constrói tudo o que ela pensa continua no mesmo lugar. Quando ela recebe o primeiro estímulo, é a primeira sapateada em cima da poeira. Por isso que tem que aprender a olhar com serenidade para identificar a carga que se traz na mente. Quanto mais se retira essas cargas mentais, que são conflitantes entre si, naturalmente vai se atingindo um estado mais tranquilo. Mas para resolver mesmo é necessário mudar a base”, esclarece. 

Por essa razão, de ser uma prática contínua, que a meditação ultrapassa a prática e passa a ser um estilo de vida. 

Para a analista de pesquisa Stephanie Trupel, esse treino para alcançar a meditação tem sido uma prática diária, que consegue levar mais longe quando a torna aplicável no seu trabalho, nas suas relações e vivências em casa.  “O barulho da sua mente é tão grande que, independentemente de onde você esteja, você ouve. É muito confuso, é um mar cheio de ondinhas”, explica ela. “Você precisa acalmar a sua mente, deixar a água aquietar para aí ver o que aquele cenário está mostrando. Eu uso a meditação ativa para isso, e minha forma de praticar é focando nas pessoas, no que está na minha frente, ter um interesse pelo o que está rolando, não ter uma expectativa. Isso eu considero meditar”, explica.

A partir desse entendimento, olhar para o crescente interesse na prática da meditação, se ela for encarada assim, o mundo viverá mais em paz, certamente.

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