“Não te conheço, mas te amo”: a arte como lembrança do amor de todos

Montagem / Coexiste Teatro
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email
Tempo de Leitura: 6 minutos
Projeto do curso Bases Imprescindíveis Para o Ator Profissional, o perfil "Não te conheço, mas te amo", é uma vitrine de compreensão do momento atual.

Compreensão e cura são duas palavras que não necessariamente são ligadas à arte. Porém, somados ao interesse, os termos definem o que tem sido o projeto “Não te conheço, mas te amo”, desenvolvido pelos alunos da segunda turma do curso Bases Imprescindíveis Para o Ator Profissional, da Coexiste Artes Cênicas. 

Em uma conta no Instagram, os 12 atores alunos usam das ferramentas que têm disponíveis para estimular o entendimento de um contexto tão inesperado. Na pandemia do coronavírus, sem a possibilidade de saírem de casa, eles exploram as sensações e o modo de pensar de pessoas com diferentes profissões, idades, cenários, situações, e interpretam sonetos, dão vida à quadros de Edward Hopper e às próprias sensações. 

Priscilla Carvalho e Carol Triguis, professoras do curso, receberam a situação como uma oportunidade de colocar em prática aquilo que, para elas, define o teatro da escola de consultoria existencial. “As pessoas não costumam ver a arte como uma ferramenta de cura”, diz Priscilla. “Você não pensa em arte como algo para purificar, algo que perdoe as suas sensações. Isso é o DNA da Coexiste Artes Cênicas: fazer com que as pessoas entendam que todas as mentalidades serão mostradas para que possam ser compreendidas.”

Para que isso acontecesse, foi preciso, inclusive, uma adaptação rápida do próprio curso. Antes totalmente presencial, levá-lo para o online se mostrou imprescindível, e o “como” surgiu de um exercício de quietude e mentalidade aberta. “A gente teve que abrir nossa cabeça para entender que formato viabilizaria esse projeto. O Bases tem que continuar, em que formato?, como seria isso?”, diz Carol. “O primeiro momento foi de escuta muito aberta, de não rejeitar nenhuma coisa que vinha na cabeça, porque tudo podia ser gancho para ideias que poderiam viabilizá-lo.”

View this post on Instagram

Casa do Marcelo.

A post shared by Não te conheço mas te amo (@naoteconhecomasteamo) on

A resposta estava no próprio cenário, que possibilitou aos alunos analisarem coisas muito profundas e entenderem rápido a necessidade de olhar para fora, ouvir e compreender as pessoas. “O momento pandemia jogou as pessoas para o entendimento disso mais rápido do que de costume. Ao mesmo tempo, a gente teve que se adaptar ao formato. Mas o próprio contexto facilitou um item do entendimento do curso”, diz. 

Esse item é, justamente, o interesse pelas pessoas, pelo contexto e a vontade de compreender as sensações humanas. A ideia, então, foi de inverter a ordem cronológica do currículo e adiantar um módulo que poderia ser mais facilmente adaptado para o online, enquanto também ajudaria os alunos a despertarem em si esse desejo de compreensão do cenário. 

Por isso que o projeto, que antes consistia na releitura e interpretação presencial de uma peça, se tornou algo totalmente autoral: documentar o contexto, o momento que o mundo está vivendo. E tudo foi trabalhado a partir de e em cima dessa ideia. 

“Os primeiros feedbacks foram dos próprios entrevistados”, conta Priscilla. “A gente conversou muito com o elenco de que o nosso objetivo era dar voz para as pessoas, para que elas pudessem ser ouvidas e compreendidas. A nossa preocupação era que a pessoa se sentisse ouvida, representada, amada. Os entrevistados, quando se viam, se sentiam importantes”. 

O segundo ponto foi tornar essa documentação do contexto mais internalizada. Isso significa que cada ator começou a fazer vídeos de si mesmo relatando o que estava sentindo e pensando em horários aleatórios do dia. As páginas matinais, um recurso de meditação ativa, que consiste em escrever 3 páginas com tudo o que uma pessoa tem na mente no momento, também foi utilizado como fonte interna.  

“A gente fez isso por muitos motivos: um é para que eles treinassem uma auto-observação. E outro, para que eles se usassem como material”, diz a professora. “Os vlogs fazem esse papel de revelar o conteúdo mental e emocional de pessoas em pandemia. É desses atores, mas na expectativa de que eles possam representar várias pessoas.”

Um ponto interessante é que não necessariamente os vlogs postados são das pessoas que os gravaram, mas a ideia era que esse material fosse intercambiado e interpretado por qualquer um dos 12 atores. “Não importa quem falou, mas o que foi dito, experienciado. É isso que nos interessa”, continua Priscilla.

Um exercício de confiança

Para Giuliano Barbaro, músico e um dos alunos da turma, o projeto como um todo tem sido um exercício de confiança. Isso porque, ao contrário de um projeto teatral pré-pandemia, o ator tem um contato grande com o material captado, mas perde esse mesmo contato depois que ele é entregue para a edição. 

Como todo o material tem sido publicado no perfil do Instagram @naoteconhecomasteamo no estilo websérie, tudo o que é captado passa pelas mãos das professoras junto com um editor, e os alunos atores só veem o resultado quando ele é publicado. 

“A gente que grava, a gente que vê, a gente que separa os trechos mais fiéis… Está na nossa mão olhar tudo e falar ‘esse é o ponto mais interessante que eu quero falar'”, explica ele. “Está sendo um trabalho de confiança muito legal, tanto deles [os entrevistados] para nós, quanto de nós para nós mesmos, nós com a Carol e a Pri e o grupo todo, de se empenhar de cabeça e de vamos fazer de verdade porque é isso que vai ficar”.

View this post on Instagram

Casa do Giuliano.

A post shared by Não te conheço mas te amo (@naoteconhecomasteamo) on

“A gente faz coisas juntos em aula e eles vão gravar sozinhos em casa, eles mesmo produzindo o próprio material”, conta Carol. “Isso gera muitos aprendizados. É um processo mais às cegas para eles. Eles não sabem como vai ficar porque vai para um editor, eles perdem o contato. Sai muito do controle do ator.” 

“Trabalhar com isso dá muita força”

Para Giuliano, o curso e o projeto têm sido uma fonte de força em um momento tão delicado. “Não sei como eu estaria psicologicamente sem o Bases, sem estar com essa questão na cabeça. Isso me dá muita força, porque eu falo que nós somos os médicos da alma agora. A gente tem que dar força para essa galera, a nossa demanda está sendo mapear o contexto”. 

O nome do projeto, aliás, foi resultado de todo o trabalho que ele tem feito no curso até agora. Durante um exercício de aula, ele re-olhou uma série de textos e anotações dos insights que teve e resumiu em um exercício de olhar para os colegas de turma e falar: “Não te conheço, mas te amo”. 

As aulas, as entrevistas e as interpretações abriram a mente de Giuliano para ver a atuação de um outro lugar, em que ele se propõe a ouvir muito mais do que a falar, e o músico se percebeu entrando em contato com um amor pelas pessoas que nem conhece e que nunca imaginou sentir. 

“Isso transborda demais para vida, o amor pelas pessoas, por querer saber as histórias das pessoas. Eu até desconfio que isso vai ficar para sempre. Vai ser impossível tentar não ver isso mais”, diz.

A visão do cenário é algo que realmente mudou para Giuliano desde que começou as aulas em março deste ano. “Eu acho que o notar das coisas é o que está sendo mais incrível. O olhar, conseguir olhar para certas coisas que eu não olhava antes. Eu não conseguia enxergar isso e agora eu estou conseguindo com a ajuda de todos eles”. 

O contexto e a função do artista

Falando em visão, Carol e Priscilla acreditam que a beleza do projeto está em, de fato, representar, documentar e oferecer entendimento sobre o momento que estamos vivendo. 

“Eu acho que essa pandemia traz para a gente a oportunidade de entender que de fato estamos muito conectados e somos muito interdependentes”, diz Priscilla. “Não sei se a humanidade viveu outro momento em que isso é tão óbvio. Mas todos dependemos de todos. E a possibilidade de desenvolver uma escuta atenta, de compaixão, aproveitar esse momento para que as pessoas compreendam umas às outras, parece a coisa mais importante para um artista fazer”. 

“Eu sinto que a gente vive às vezes uma falta de contato com o fato de que a gente ama uns aos outros”, complementa Carol. “E eu percebo que a gente só esquece porque se permite ficar distante das pessoas, não ouvi-las. Se eu parar para ouvir, eu vou amar. Se eu parar para olhar alguém, eu vou lembrar que eu sou apaixonado por aquelas pessoas”. 

Para a professora, as pessoas esquecem que amam uns aos outros porque perdem o contato entre si – e a relembrança disso gera também uma reconexão com esse amor. “Uma das coisas que esse projeto faz é trazer as pessoas para o seu foco, para você lembrar do seu amor. Você vai lembrar que você ama as pessoas, as histórias delas, você ama ouvi-las se expressando, saber o que elas estão sentindo. Você só consegue esquecer disso se você não ouvir.”   

Conheça o projeto:
“Não te conheço, mas te amo”

Siga no Instagram: @naoteconhecomasteamo

Websérie da segunda turma do curso Bases Imprescindíveis do Ator Profissional, da Coexiste Artes Cênicas, que busca na arte a função de olhar e ouvir o mundo neste momento. Um projeto desenvolvido por 12 atores para expor as sensações que parecem ser só deles, mas que, na verdade, são sentidas por todos. Oferece também a oportunidade dos alunos entregarem para as pessoas o seu amor. 

0 0 vote
Article Rating
TAGS:

RECEBA A Coexiste.info no seu E-mail

.Conteúdos relacionados

Distanciamento social

Tão longe, tão perto

Tempo de Leitura: 7 minutos O distanciamento social tem sido uma grande oportunidade de reolhar os relacionamentos e entender onde as conexões acontecem. Não ter medo de mudar o que se pensa é o início desse processo

Leia Mais »

.Deixe o seu comentário

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
0
Would love your thoughts, please comment.x
()
x

5 filmes que te ensinam sobre a nossa existência

Encontramos no cinema obras que nos ajudam a olhar para a vida e a nossa realidade com outros olhos. Confira!
Leia mais

O que é a Mente

A Mente é o atributo do Espírito que coloca em ação a sua condição criativa.
Leia mais

Especial HackTown 2019

Nossa equipe esteve em Santa Rita do Sapucaí para trazer para você o que rolou de melhor em um dos eventos de inovação mais importantes do pais
Leia mais

O teatro como ferramenta de transcendência

A Coexiste Teatro une o treinamento da consciência existencial aos princípios das artes cênicas para que atores profissionais exerçam a sua função com máxima relevância.
Leia mais