Para lidar com o medo da inutilidade: amor

Bonnie Kittle, Unsplash
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Tempo de Leitura: 7 minutos
Perceber o seu trabalho como inútil neste momento é um dos tantos medos que a pandemia aflorou, mas colocar para rodar atributos essenciais de cada um é um caminho objetivo para sair disso

Se há uma certeza que a pandemia trouxe para o cenário foi a fragilidade dos planos e certezas que todos tínhamos antes dela. Mesmo com um constante prenúncio de uma mudança significativa na relação com o trabalho, com o tempo, com o espaço por meio da tecnologia, parecia que ainda haveria um tempo para se preparar. E que as próprias circunstâncias trariam oportunidade de compreensão à medida que acontecessem. O debate sobre real utilidade e o repensar o trabalho já vinha ganhando forma. 

Agora, com a pandemia, o distanciamento social e o fechamento do comércio, o comportamento de consumo mudou – ainda que temporariamente, mas não se sabe ao certo até quando iremos assim. E com essa mudança, muita gente perdeu o emprego e precisou rever a sua atividade. Repensar o sustento e, com isso, de novo, a sua utilidade num contexto tão conturbado se tornou prioridade. 

É difícil saber, por enquanto, os impactos que o distanciamento social e a crise do coronavírus vão gerar na economia. Apesar disso, só no primeiro trimestre deste ano, terminado em março, o Brasil registrou uma taxa de desemprego de mais de 12% – representando quase 13 milhões de pessoas sem ocupação, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O número, aliás, é histórico. Em comparação com o mesmo período de 2019, o índice registrou mais de 2 milhões de desempregados a mais no começo deste ano, uma das primeiras medidas que mostram os efeitos do COVID-19 no mercado de trabalho brasileiro e um recorde para o IBGE. 

Esses dados, claro, estão conectados com outros: de acordo com o Sebrae, 18% dos empresários demitiram funcionários desde o começo da quarentena, na segunda semana de março, e mais de 600 mil micro e pequenas empresas fecharam as portas. 

“As empresas colocaram o pé no freio e revisitaram os processos internos, bem como as demandas”, explica a coordenadora de gente e gestão da Printi, Monique Cipriano. “Hoje, o desempregado enfrenta as seguintes dificuldades: concorrência alta, o que pode tornar o perfil dele com baixa evidência, pouca demanda de vagas, e mercado incerto”.

Muito do que tem gerado esse processo de revisitação é a adoção de um novo parâmetro: quais são as atividades consideradas essenciais e que devem continuar seus atendimentos normalmente. Hospitais, clínicas médicas, supermercados, veículos de mídia (como jornais) e farmácias entram nesse bolo. Mas e todas as demais profissões e serviços?

“Ficou evidenciado que ou nos dedicamos a fazer algo de qualidade que mostre o nosso impacto positivo no mercado, ou nossa atividade ou ‘utilidade’ será  questionada ou até mesmo se tornará obsoleta. É um momento de reflexão, de sair da zona de conforto e se questionar qual o real propósito do que se tem feito”, diz Monique.

Como então não ter medo de ficar inútil neste momento? 

À luz da sabedoria, a real utilidade só pode ser compreendida a partir do entendimento profundo de que já somos úteis, independente do que fazemos e da compreensão do contexto. Como alcançar isso? 

Kaw Yin e Yan Yin, fundadores da Coexiste e consultores existenciais, explicam que para sair do medo da inutilidade é preciso reverter uma uma questão básica: pensar no por que se quer ser útil.  Ao olhar com sinceridade para essas duas posturas:  “eu quero ser útil porque o que entrego é útil à sociedade” ou “se eu vou oferecer algo que está sendo considerado útil, eu vou estar bem colocado no mercado”, com o qual você se identifica? 

“Se eu quero ser útil, a minha realização acontece quando eu consigo ser útil, não importa quando, onde e como”, explicam. “ Você assume mais um estado de solicitude do que de análise de mercado para descobrir como garantir a sua remuneração diante do que está sendo mais importante em cada momento”, ensina Kaw Yin. 

Outro ponto fundamental é ter a certeza de que já somos úteis. “A única coisa que não pode acontecer é você ditar o seu valor pelo fazer. Não é o seu fazer que dita o seu valor. O seu valor está na sua vida, que não é inútil e nunca vai ser, porque Deus não faz nada inútil. Partindo da certeza da utilidade da vida, você oferece tudo o que você tem e sempre vai ter alguém precisando do seu serviço”, assinala Yan Yin. “A partir dessa certeza, você adquire uma segurança de não ter uma interrupção no fluxo entre o que você tem para entregar e o que você tem para receber”, esclarece Kaw Yin. 

Para não deixar no campo do etéreo este fato, os professores explicam um caminho muito objetivo para se conectar com isso. “Tem algo que não se aprende em nenhuma escola, no máximo em cursos se aflora isso. É algo que é nato nas pessoas e elas só precisam colocar para rodar: o estado de amor”, esclarece Kaw Yin. 

Amor e objetividade 

Mas como assumir o estado de amor de uma forma objetiva? Kaw Yin e Yan Yin explicam que essa é a única forma de se ter uma relação objetiva com o contexto. “A percepção objetiva e o amor andam juntos. Na percepção objetiva não há julgamento, nem interpretação, do que chega”. 

Para compreender este conceito, é importante entender como funciona o sistema de percepção. Quando parte de uma visão pessoal e particularizada com base no que se pensa, a percepção se torna relativa ao que se quer confirmar nas cenas, com base nas crenças e conceitos estabelecidos.

“Quando a percepção é objetiva, ela vê as coisas no absolutismo da pureza de qualquer coisas que se apresenta”, explica Kaw Yin. “Para se alcançar essa percepção é preciso amar o que se observa.”

O professor diz que essa postura gera duas características essenciais da percepção objetiva: o não interesse em distorcer a percepção para atender a seus desejos pessoais, e o interesse pela sabedoria a respeito da real função de cada item no contexto, incluindo a si mesmo. “Isso coloca as coisas em uma condição de perfeita adequação às demandas do cenário. Nenhum item do cenário está lá por acaso”, esclarece. 

Sem medo e aberto para o novo 

A importância de colocar o estado de amor para rodar para servir ao contexto também se dá pela ausência do medo. “Em estado de amor, o medo se torna impossível. E não havendo medo, não há rejeição pelo que chega, mas sim, abertura para a compreensão na certeza e na confiança”, assinalam os professores. “O amor nasce da realidade, o medo, da imaginação”. 

Os professores acreditam que a percepção objetiva será um ponto fundamental na recuperação do equilíbrio social nos próximos meses, e aqueles que tiverem essa percepção poderão facilitar o reconhecimento dos potenciais de cada um e como esses potenciais podem ser essenciais em cada momento. 

“Enquanto as pessoas não reconhecem esse estado de Amor natural delas, elas se orientam por uma percepção individualista, o que as faz não enxergar a sua utilidade com clareza, e quem tem essa visão objetiva, pode facilitar esse treinamento”, afirmam.

Além disso, a percepção objetiva pode facilitar a inovação para resolver questões essenciais. “Pela clareza e compreensão que traz, a percepção objetiva pode ser fonte de insights e da visão de soluções presentes, mesmo porque se manter no presente é básico para quem quer solucionar questões presentes”, salienta.

Todo esse entendimento permite a adoção de uma nova postura mental para lidar com o cenário que se apresenta, e servir ao cenário atual. “A história de trocar o pneu com o carro andando mesmo. Ao mesmo tempo que você atende necessidades momentâneas, você tem que ter uma visão disponível, ampla e uma grande disponibilidade de prestar serviços conforme a disponibilidade. Um skill necessário nesse momento é a disponibilidade para servir. Isso tem que estar à frente de um desejo de fazer uma coisa específica. Porque  a sua vontade de servir vai ser altamente inspiradora para você descobrir como. E isso vai gerar facilidade de você se adaptar, porque a vontade de servir está na frente do desejo de determinar como. 

Compreender que a pandemia é um status momentâneo é uma maneira objetiva de lidar com ela. “Cada sociedade organiza suas estruturas conforme a sua necessidade, em cada momento. Uma tribo se organiza de um modo diferente de uma cidade. Mas as duas acham caminhos para viver à sua maneira. Este é um momento, e se não julgarmos a situação, podemos compreender como passar por ela”, finalizam  Kaw Yin e Yan Yin.

A vivência na prática 

Para a designer de joias Carol Altoé, entender esse propósito e exercer a sua função ganhou um novo viés diante da crise. Ela, que há 20 anos trabalha no mercado joalheiro e hoje desenha para uma marca conhecida no setor, percebeu um caminho duplo: primeiro o aumento da produtividade do seu time, que agora está todo em sistema home office, seguido pelas suas primeiras férias de 30 dias em muito tempo. O resultado tem sido um processo profundo de reflexão.

“Há 20 anos eu achava que a minha utilidade no mundo era o que eu entregava como entrega profissional”, comenta. “Eu achava que a minha função era desenhar joias e que era isso que eu tinha que fazer.”

Carol Altoé: servir aos cenários trouxe a sensação de utilidade

Carol viu, porém, a sua relação com o trabalho mudar completamente desde que começou, dez anos atrás, um treinamento de aprender a olhar para a própria mente como aluna da Coexiste. Esse foi o ponto de partida para que ela, hoje uma aluna avançada, entendesse como a sua função e utilidade estão ligadas com a sua verdadeira essência. 

“Eu fui percebendo que a minha relação com o trabalho, que antes era de sobrevivência, começou a ter um pouco mais de aproximação com servir e, agora, parece que eu estou entendendo um pouco mais do que é cuidar de uma empresa em relação ao trabalho que eu forneço”, explica.  

Nisso, o medo passou a ser observado também como uma barreira para que ela cumprisse a sua real função: “Enquanto estamos com medo, nos sentimos muito inúteis. A hora que você está sendo útil e você tem certeza disso, você não sente medo. Você consegue ver os cenários com abundância de ferramentas e certeza de que a sua entrega está certa”, diz. 

Foi uma mudança de intenção para o cuidar e para o servir em todas as atividades do dia, incluindo aquelas que, via de regra, podem ser consideradas um incômodo por não gerarem algum tipo de renda para ela, como lavar a louça ou varrer a casa. “Eu tenho feito muitas entregas de almoço e arrumação!”, brinca. 

Quando o assunto é o seu trabalho, essa reversão ficou muito mais clara e presente toda vez que precisa pegar o lápis para fazer um novo desenho.  “A intenção com a qual ele é feito vem de um outro lugar, que é um lugar de cuidado, de servir, de contexto, de entrega do que o outro está precisando e que, às vezes, nem ele sabe.”

 

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