Quer se comunicar? Tire a violência da mente

(Foto: Luisella Planeta Leoni, Pixabay)
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Tempo de Leitura: 7 minutos
Desenvolvida a partir da dedicação de seu fundador, Marshall Rosenberg, a entender como o amor e a violência coabitam a mentalidade humana, a Comunicação Não Violenta propõe uma nova postura nos relacionamentos

Quando se fala em violência no mundo, é fácil pensarmos em crimes, guerras, ataques de toda ordem. Mas a violência contida nas pequenas ações do dia a dia, consigo mesmo e com os outros, nem sempre é facilmente percebida. O líder pacifista Mahatma Gandhi, que propagou a cultura de não violência ao mundo, trouxe a célebre frase: “seja a mudança que você quer ver no mundo”, lembrando que são nossas ações que podem provocar transformações. 

Se não se localizou nisso ainda, pense em todas as vezes que você se sentiu contrariado, ou fazendo algo que não acreditava totalmente; ou ainda tratou alguém próximo de forma ríspida, não gentil; ou então soltou aquele xingamento no trânsito; ou tirou sarro de alguém, achando que era só brincadeira. Podem ser situações corriqueiras, comuns, e que até podem ser consideradas parte do cotidiano. Mas quanta sensação de defesa ou ataque tem nessas situações? E o quanto essas sensações remetem à violência? 

O psicólogo Marshall Rosenberg, criador do processo de Comunicação Não Violenta, explicou a origem da violência como a falta de conexão com a Vida. PhD em Psicologia Clínica, Rosenberg se viu, quando criança, envolvido em um ambiente hostil na cidade em que vivia e na escola, e, ao mesmo tempo, observava, em sua casa, a amorosidade com que seu tio cuidava de sua avó, e desde pequeno se questionou o que fazia com que o ser humano tivesse dentro de si os dois sentimentos: uma identificação com a violência e, ao mesmo tempo, uma amorosidade, e o que nos faz agir de um jeito ou de outro. 

Ao longo da vida ele se aprofundou em estudos sobre o tema, tanto no campo da psicologia, quanto nas religiões, e na década de 60 construiu o Centro de Comunicação Não Violenta, em São Francisco, Estados Unidos. Trata-se de “uma organização global que almeja um mundo onde as necessidades de todos sejam atendidas pacificamente”, como está definido no livro “Comunicação Não Violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais”, escrito pelo psicólogo. 

Há uma outra frase de Gandhi que diz “violência é criada por desigualdade, a não violência pela igualdade”. Ao considerar isso no dia a dia, observando tudo o que se considera desigual, diferente, é fácil compreender a abrangência que isso tem. No episódio 331 do programa A Verdade Está no Ar, O Profissionalismo e O Fim da Violência, Kaw Yin e Yan Yin explicam que “o que não atende a todos é violento”. Os consultores existenciais explicam que onde há pessoalidades, há concorrência de metas e defesa de metas pessoais e específicas que não visam atender a todos, e isso gera violência. O caminho para a saída disso passa pela consciência sobre o que é comum a todos, a Vida, a existência, e o reconhecimento de que não há separação. 

Comunicação Não Violenta 

Os princípios da Comunicação Não Violenta (CNV) passam por um processo, antes de tudo, de autoconhecimento, autoaceitação e desistência da culpa. Em um workshop disponível no YouTube dado por Marshall Rosenberg, em 2010 (ele faleceu em 2015), é enfatizado que Comunicação Não Violenta trata de algo que todos já conhecem, mas estão esquecidos: a doação natural, o compartilhar natural. No vídeo, o psicólogo explica que há um prazer natural em compartilhar com o outro, em atender o outro, em se conectar, mas a educação que recebemos nos impede de exercer isso o tempo todo. 

Outro ponto elucidado por Rosenberg é a necessidade de se acabar com a mentalidade de certo e errado, e consequentemente de punição e recompensa. No fundamento do que a Comunicação Não Violenta explica está o fato de que todo mundo age para satisfazer necessidades básicas e que são comuns a todos. Tais necessidades passam por autonomia, integridade, interdependência e com ela aceitação, amor, compreensão, confiança; comunhão, paz, amor próprio, e até necessidades físicas, como alimento, descanso. 

“A Comunicação Não Violenta é uma comunicação compassiva”, define a facilitadora em CNV da Diálogos Corajosos, Carolina Cassiano. Ela tomou contato com o processo quando decidiu sair em busca de respostas sobre como se relacionar melhor com as pessoas, de forma que pontos de vistas diferentes não significassem desconexão. “A CNV é uma comunicação de coração aberto, que gera confiança, em que o conflito é uma oportunidade de a gente se conhecer mais e tornar os nossos vínculos mais fortes”, define. 

Para isso acontecer, Carolina explica que é necessário buscar um espaço de se conhecer, de entender mais as próprias necessidades, entender o que realmente é necessário fazer, em vez de atender condicionamentos, aquilo que assumimos como deveres, obrigações e não como escolha. “A gente está acostumado a agir com base em parâmetros externos, em o que é certo ou que é o combinado, e a gente não está acostumado a se perguntar, olhar pra dentro e pensar: ‘como eu fico com isso? Isso me faz bem? Essa é minha escolha consciente?’ É uma mudança do dever para a escolha. É uma quebra de paradigma, a gente é educado para seguir regras e não seguir a vida”, reforça.  

Carol Cassiano, da Diálogos Corajosos (Crédito: Divulgação)

Conectar-se com o outro também é um aspecto fundamental na prática da CNV, e isso vem do desejo de compreender. “Se conectar é se ver mutuamente, é estar numa relação que de alguma forma tem um entendimento, uma sintonia, uma vontade de compreender. Eu estou enxergando você. Se não tem isso, não se encontra uma solução sustentável”, explica a consultora. 

Aliás, é na compreensão do outro que se pode encontrar um espaço para o entendimento, ainda que se tenham ideias diferentes. “A CNV convida a gente entrar para os conflitos olhando para as necessidades e não para comportamento e com muita abertura para compreender e disposição de co-criar soluções”. Nessa proposta de se encontrar um lugar em comum, uma frase muito utilizada nos estudos de Comunicação Não Violenta é a do poeta persa Rumi, que diz: “Para além da ideias de certo e errado, existe um campo. Eu me encontrarei com você lá”. 

Nessa proposta, cuidar da linguagem acaba sendo uma decorrência.  “A linguagem é um caminho que nos aproxima ou nos afasta da nossa origem compassiva. É mais do que uma estratégia de fala, é um caminho de tomada de consciência sobre a minha experiência humana e sobre como eu quero me relacionar com o outros”, explica a consultora. 

Não julgamento e escolha 

A compreensão só é possível quando se tem a intenção de ouvir sem julgar. Isso foi algo observado por Marshall Rosenberg ao longo de suas pesquisas, que oferecer uma escuta profunda, empática, sem julgamento, já é curativo, pois dessa maneira a pessoa também já se permite falar sobre suas dores e ouvi-las sem julgamentos também. “Em suas pesquisas, Marshall viu que a nossa natureza é compassiva, mas a forma como fomos educados nos afasta dessa natureza. A gente foi educado para manter as estruturas e não para cuidar da vida”, conta a facilitadora. 

No workshop, Marshall deixa claro o quanto a ideia de punição gera violência. “Aprendemos que a correção vem por meio da penitência, e as pessoas precisam se odiar pelo que fizeram de errado. Isso só gera mais violência”, disse no vídeo. Ao falar sobre o alívio que um filho disse ter sentido quando a mãe decidiu não fazer mais o jantar, que era algo que ela odiava fazer e fazia todos os dias, o psicólogo é enfático em dizer o quanto isso afeta o nosso redor. “Tudo o que fazemos por medo da punição, todos pagam por isso. Tudo o que fazemos por recompensa, todos pagam por isso. Tudo o que fazemos para que as pessoas gostem de nós, todos pagam por isso. Tudo o que fazemos por dever, obrigação, culpa, vergonha, todos pagam por isso. Não foi para isso que fomos criados. Fomos criados para desfrutar do dar, dar de coração”, explicou. 

Outro princípio adotado pela CNV é entender que tudo é uma escolha, inclusive como vamos nos sentir diante dos estímulos. “Temos escolha sobre tudo o que acontece conosco. Dizer que o outro é responsável pela forma como nos sentimos é uma forma de culpar, e assim manter o jogo violento”, enfatizou na aula. “Precisamos localizar a necessidade que temos, e deixar que essa necessidade seja identificada pelo coração e que não suba à cabeça, onde será julgada. É no coração que conseguimos nos conectar com as necessidades e comunicá-las. Se vemos alguém com uma necessidade exposta, a vontade de resolver, de sanar, de dar universalmente, vem, caso contrário, será violência. É um ato de violência culpar os outros pela maneira como nos sentimos”, ensinou. 

Ainda complementa que todas as ações das pessoas são por satisfazer necessidades, por isso é importante ter consciência das próprias necessidades e compreender as necessidades das pessoas. E que a partir disso, é possível entender que insultos, críticas, comentários duros são apenas formas trágicas de dizer “por favor” –  ele explica que a partir dos princípios da CNV é possível fazer uma leitura que se compreenda que os humanos apenas dizem “obrigado” e “por favor” em todas as suas expressões. 

No que tange o não julgamento, a postura a ser adotada é a da observação, e , consequentemente, da compreensão. Na prática, a facilitadora Carol Cassiano explica que a postura de buscar a compreensão e o não julgamento não elimina a possibilidade de conflitos acontecerem, mas, ao surgirem, serem utilizados como uma maneira de aprofundar o relacionamento. 

“A gente tem um certo preconceito com o conflito como se fosse necessariamente o fim da conexão. A gente finge que não existe porque não tem competência, habilidade que construa entre nós mais compreensão, mais confiança, mais sintonia. E o conflito pode ser uma oportunidade de aprofundar uma conversa que permita isso”. Nessa seara, caso se perceba julgando, a facilitadora fala sobre observar esse movimento para aprender sobre si mesmo. “Se eu enxergar os meus julgamentos como revelações sobre mim, eu passo a não ter preconceitos e passo a ser mais consciente sobre mim”, finaliza Carol. 

Diante dos ensinamentos propostos, a facilitadora revela que a maior dificuldade que as pessoas se deparam ao buscar praticar os princípios da Comunicação Não Violenta é a saída da mentalidade de certo e errado. Como ela mesma explica, CNV não é um processo, mas um estilo de vida, e que requer, sobretudo, uma disposição em mudar a mentalidade. Mas, certamente, é uma ferramenta que nos leva para um outro nível de consciência sobre nós mesmos e nossas relações para que sejam, de fato, sem violência. 

 

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