Repensar a Educação é preciso

Foto: Roel Dierckens / Unsplash
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Tempo de Leitura: 8 minutos
Sendo base central da cultura vigente, o sistema educacional começa a ser questionado, abrindo caminho para novos modelos, reflexo da mudança de mentalidade pela qual o mundo passa

A mudança acelerada pela qual o mundo está passando demanda uma revisão dos principais pilares da cultura: a educação. O fácil acesso à informação, a transformação da economia, e demanda por respostas mais velozes às mudanças sociais, faz com que o sistema educacional também precise se reinventar. E mais do que em aspectos tecnológicos e processuais, a demanda pela evolução está em aspectos do desenvolvimento de habilidades pessoais e de relacionamento, e que estejam mais próximas de responder como lidar com os contextos atuais. Foi essa a proposta do  evento Educação Disruptiva: Como a desobediência pode transformar a educação?, promovida pelos produtores de conteúdo do podcast Pensar a 2, Priscylla Spencer e Denis Zanini. 

O contexto dado é de que o modelo tradicional de educação é baseado ainda no modelo prussiano, do século XVIII, de treinamento do exército e depois investido por governos e, posteriormente, pelo modelo industrial, tanto que a organização das salas, por filas, com horários, se assemelha à organização das indústrias. E chegamos aos dias de hoje herdando algo que não mais se encaixa no modo de vida atual. 

Embora os modelos alternativos de educação estejam em expansão – alguns indicados na década de 70 – com iniciativas que visam mudar os espaços escolares, as grades curriculares, o desenvolvimento de projetos em conjunto, a não separação por faixa etária, ou um sistema de avaliação que não passe por provas, ainda não há uma resposta definitiva sobre o caminho a seguir no que tange ao desenvolvimento integral de uma criança. E ainda assim, são atividades em que cada escola decide por um modelo a seguir, e tem se discutido muitas soluções, mas o que ainda não representa a adoção de um novo sistema educacional.  

Mesmo que as informações ensinadas nas escolas estejam disponíveis na internet, o modelo tradicional ainda traz o decorar das matérias, parte-se de um modelo massificado, sem estímulo à criatividade, e benefícios pouco práticos no dia a dia, gerando desinteresse dos alunos pela escola, criando um hiato entre o que o mundo demanda e a formação básica oferecida. 

No evento, foi citado o documentário argentino Educação Proibida, de 2012. Nele,  os educadores entrevistados apresentam aspectos bastante decisivos na formação dos alunos das escolas tradicionais em como se relacionam com a vida e com o mundo depois dessa formação. E se formos olhar dentro do que aprendemos em nossa trajetória, faz todo sentido. 

Um dos aspectos colocados pelos educadores entrevistados é que dentro do modelo tradicional de educação, a sociedade nos torna passivos no que tange a mentalidade investigativa, fornecendo respostas pré-fabricadas, em que não há um estímulo por um questionamento e pela busca de respostas. 

Outro ponto colocado por eles é a motivação externa e não interna pelo aprendizado. Dentro do modelo prussiano, o que é ofertado é a conquista do resultado que virá a partir disso, a ideia que com os estudos se conquista um melhor emprego, mais recursos, mais status, e não parte de um interesse interno por conhecer, por saber. Da mesma maneira em que não se é considerado que o indivíduo já traz em si, em sua natureza, a capacidade de lidar com o externo, sem a necessidade de uma intervenção como se algo precisasse ser construído do zero, em vez de ter seu potencial estimulado. 

Além disso, o documentário aponta que o ambiente competitivo criado, assim como a exigência em uma adaptação a um meio, faz com que as crianças percam a conexão com sua essência vital, entrando numa postura de medo, de defesa, que é intensamente repetida em suas relações, e não há na escola, uma formação emocional. Dentro dessa perspectiva, ressalta o documentário, os próprios educadores, muitas vezes, agem como defensores e perpetuadores do sistema, uma vez que também foram educados nele. 

Transformação necessária

No encontro, reflexões importantes nesse sentido foram trazidas, que consideram aspectos que vão além dos modelos educacionais. É no aspecto de quebrar os paradigmas do sistema vigente onde reside a maior demanda por transformação. 

O consultor em psicologia e espiritualidade, Marcelo Cotrim, da escola Entre Vidas, aponta que a mudança da educação passa pela necessidade do desenvolvimento de autoconsciência dos cidadãos. E que para mudar a educação das crianças, é necessário haver a reeducação dos pais em conjunto, uma reeducação emocional. “É necessário quebrar padrões emocionais que estão no inconsciente coletivo”. Por exemplo, as crianças são ensinadas a dizerem o que serão quando crescerem, sendo que elas já são agora. “A criança precisa entender que ela é bem-vinda, que o mundo a ama, pois ela tem muito a entregar ao mundo, e é por isso que ela merece tudo”. E como não foi essa a base do ensino que recebemos, acaba sendo o contrário. “O adulto de uma certa forma inveja a liberdade da criança, e por isso precisa enquadrá-la também. Por isso é necessário nos autoconhecer, reconhecer a nossa liberdade, para ensinar isso também”, enfatiza. 

Sair da mentalidade da culpa foi outro aspecto enfatizado no evento. Para a educadora Jamile Coelho, é necessário haver uma alfabetização emocional. “Fomos criados na cultura da culpa e do medo, medo de errar, de não ser aceito. E sempre buscamos culpados para as coisas. Precisamos mudar nossa mentalidade para buscar solução em vez de culpar para quebrar esse padrão”, defende. 

Para Fernando Campos, diretor da ONG Ser, que trabalha adolescentes com transtornos de Borderline, a busca por propósito, integração e gratidão é o que estimula os jovens. “Eles chegam não se sentindo importantes, eles não gostam de serem comparados, de competirem. São absolutamente sensíveis, e para eles, o mundo desse jeito não faz sentido”. O administrador lembra que no mundo polarizado, somos ensinados a ser autoncentrados, e o outro só se torna interessante quando oferece algo que nos interesse, caso contrário, ele vira um competidor, ou alguém a quem se possa atender por caridade, e isso se volta novamente para si mesmo. “Isso só muda quando começa a ver o outro como irmão, e a reconhecer o amor entre as pessoas.  Quando falamos de caridade, fraternidade, unidade, isso faz sentido. E a gente busca trabalhar isso com eles”. 

Sentindo-se inadequado ao sistema de aprendizado desde sempre, o consultor Cari Mello teve em sua história a detecção de seguir o modelo proposto não o faria feliz. Depois de uma bem sucedida carreira no ramo de telecomunicações, se deparou com a depressão e foi em busca de algo que lhe desse sentido. “Durante muito tempo tive uma convivência egoísta, inconsciente e inconsequente, e isso não era natural. Descobri que conviver de forma colaborativa está na nossa essência, e fiquei me perguntando por que não nos definimos de forma generosa, se é isso que somos?”. 

Em sua trajetória como consultor, notou o quanto as pessoas ainda são dirigidas pela competição. “As pessoas se adequam a funções, ainda somos educados em hard skills (aspectos técnicos). E quanto mais compete, mais solidão sente. Isso não é sustentável”. Cari agora se dedica a difundir o conceito de netweaving entre as empresas, que é oferecer ajuda, e saber que o retorno poderá acontecer de alguma outra forma, em outro momento, por meio de outra pessoa, e essa é a diretriz para o que ele chama de uma convivência com relevância, em atuar por uma causa, em entregar o que se tem com carinho, amor, generosidade e inclusão. “Precisamos libertar a nossa essência generosa. A dificuldade não são as novas ideias, mas sim, sair das antigas”, conclui. 

Iniciativas 

Modelos inovadores de educação já existem há um bom tempo, como o Método Montessori, a Pedagogia Waldorf, ou a Escola Moderna, entre outras. Mas o que vem sendo um ponto em comum entre as diferentes iniciativas é o desenvolvimento de aspectos humanos, que até então não eram considerados. 

A série Destino Educação: Escolas Inovadoras, do Canal Futura, demonstrou 13 escolas de diferentes partes do mundo que, embora adotem formatos diferentes, trazem os seguintes pontos como inovação: desenvolvimento de autonomia, onde a criança pode ser responsável por seu plano de estudos; os educadores como facilitadores ou tutores, e não como responsáveis pelas aulas; o desenvolvimento de relacionamento entre os alunos, algumas  escolas agrupam os alunos por faixas de aprendizado, e não mais por séries, então é comum alunos de diferentes idades conviverem; o trabalho por projetos e o aprendizado multidisciplinar; o autoconhecimento, ou aprendizado emocional, os alunos são estimulados a conhecer suas emoções e lidar com elas, e até a consideração do aspecto integral do aluno, em que ele possa buscar respostas tais como qual é o sentido da vida. Os resultados apontados pelas alternativas demonstradas são crianças mais confiantes em si mesmas e na vida, e mais autônomas na busca por soluções e aprendizados. 

Outro movimento que tem se consolidado pelo mundo, é a desescolarização, onde a família opta por ensinar os filhos em casa, sem a adoção de métodos didáticos pré-estabelecidos. Iniciada nos anos 70, a prática é regulamentada em mais de 60 países, entre eles Finlândia, Reino Unido Rússia, Canadá e França, que, em alguns casos, tem modelos híbridos junto com a escola. Nos EUA mais de 2 milhões de crianças são educadas fora da escola. No Brasil, dados da Associação Nacional do Ensino Domiciliar (ANED) apontam que cerca de 7500 famílias estejam ensinando as crianças fora da escola, mesmo ainda não sendo uma atividade regulamentada pela legislação, que determina que as crianças frequentem a escola, e isso vem do desejo de oferecer um novo modelo de ensino aos pequenos.  De acordo com a ANED, já foram apresentados 8 projetos de lei para aprovação do ensino. Não é simples, muitos casos já foram denunciados, e seguem em processo judicial.  

A adoção da desescolarização visa também trazer mais autonomia às crianças, e fazer com que elas aprendam a partir das interações com o mundo e com os relacionamentos, e a partir do interesse que têm pelos assuntos, busquem o aprendizado. 

Uma das maiores referências no tema, a educadora Ana Thomaz cria os filhos fora da escola. Em entrevistas concedidas sobre a tema, ela explica que muito cedo percebeu que a escola não a havia preparado para a vida, e que somos criados para um mundo condicionado, o que não corresponde à vida, que ela considera incondicionada, e isso gera frustração. Foi a pedido dos filhos que ela e o marido optaram pela prática e adotaram um novo modelo de vida, dedicado ao desenvolvimento desse olhar. A medida não visa ir contra o sistema vigente, mas sim, oferecer uma outra oportunidade de desenvolvimento, tanto que Ana concede palestras e consultoria em escolas, e já pensa em projetos para serem desenvolvidos junto com as instituições de ensino.Para ela o conceito de desescolarização é muito mais amplo, como escreveu em um post em seu blog: “Desescolarização, para mim, é a prática de “tirar” a escola de dentro de nós, o pensamento formatado que a escola nos ensinou. Escola que vai além de seus muros, que existe em casa, na sociedade, no trabalho…”. 

Mudar o mundo 

Um ponto em comum em todos educadores que propuseram e propõem inovações nessa área é a importância da educação na mudança no mundo, pois pessoas mudam o mundo, e quanto mais conscientes sobre si mesmas, sobre as demandas do mundo e sobre o propósito da vida, mais efetivas elas serão. E a necessidade do resgate de valores primordiais, relacionados à nossa natureza torna-se cada vez mais latente. Para os fundadores da Coexiste, Kaw Yin Yan Yin, a base da educação deveria ser a o contato com a existência, a criança precisaria saber sobre ela própria, saber como funciona a mente humana, sobre a vida, sobre o mundo e sobre as relações, como se dá a comunicação humana e ser incentivado ao relacionamento, para a partir daí, desenvolver as habilidades. 

“É algo que precisa acompanhar o aprendizado, de maneira a conciliar o que ela aprende com as reais necessidades do que ela é de fato, com o que a natureza dela pede”, explica Kaw Yin. “Se a criança tem uma educação que a afasta do que ela é de verdade, ela vai se tornar uma pessoa solitária, com medo e com culpa. Agora se ela é incentivada a manter o contato com a existência, isso fortalece a autoestima, a torna uma pessoa feliz, alegre e mais aberta ao aprendizado, e ela recebe todas as informações do mundo sem medo, o que torna a percepção dos fatos mais nítida e a atuação no mundo mais precisa”, elucida Yan Yin. “O que torna uma pessoa segura é o contato com os fatos, e não opiniões sobre fatos”, explicam. 

As perguntas estão sendo feitas, as demandas mapeadas. Agora, mudar as bases é um tema que envolve a sociedade como um todo, e requer a tomada de consciência dessa necessidade e para que esse tema seja amplamente debatido. As mudanças já começaram, e o resultado dessas iniciativas serão percebidos com o tempo. Este certamente será um tema recorrente por aqui. 

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Gracieli Gequelin
Gracieli Gequelin
11 de setembro de 2019 15:54

Demais esse texto!!! Delicia ver o conteúdo da coexiste sendo expandido pro olhar da educação de crianças. Primordial!!!

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